Pedro Paixão, in Amor Portátil

«o amor entra aqui como àgua em terra seca, um substituto em tempos indigentes, de grande insuficiência, o que nos resta.»
"Não quero que ninguém me venha incomodar esta tarde.
Estou a pensar em ti. Todo o esforço é pouco, toda a atenção não basta.
Penso em ti que chegas das mais diversas maneiras e não tenho modo de controlar por inteiro.
Apareces ali e depois saltas para muito longe no tempo ou no espaço, baralhando-nos as vidas.
Ouço-te a dizer uma frase que não chegas a completar porque pelo meio irrompe uma recordação mais apressada.
O melhor é deixar vir o que tem de vir porque tentar fixar uma imagem é condená-la a desaparecer, ensaiar uma recordação é afastá-la para longe, correr o risco de para sempre a perder.
Pensar em ti é um mágico jogo em que continuas a brincar comigo para além da minha vontade.
Por vezes levas-me para lugares sombrios e dolorosos para que ninguém caia na mentira de que tudo foi fácil.
As tuas zangas voltam a parecer pavorosas, a assustar-me.
As tuas palavras duras ainda me fazem ficar calado e entristecer de repente.
Mas há a compensação do súbito abraço, do sufoco das línguas, do sossego na alma.
É tão estranha a memória, tão inútil, tão poderosa.
Raramente me deixo abandonar a ti como agora, mas hoje, repito, não quero ser incomodado por nada deste mundo, que tu já nem sequer habitas.
E ainda gostava que soubesses que não consigo, ao pensar em ti, separar-te da beleza do teu corpo.
O que pode ser injusto, pois tu tens a alegria e a graça que atrai e vence.
Mas é o teu belo corpo que continua a fazer de mim parvo, a prometer-me a felicidade que jamais alcançarei.
Guarda esta confissão e faz dela o que quiseres."

«o amor entra aqui como àgua em terra seca, um substituto em tempos indigentes, de grande insuficiência, o que nos resta.»
"Não quero que ninguém me venha incomodar esta tarde.
Estou a pensar em ti. Todo o esforço é pouco, toda a atenção não basta.
Penso em ti que chegas das mais diversas maneiras e não tenho modo de controlar por inteiro.
Apareces ali e depois saltas para muito longe no tempo ou no espaço, baralhando-nos as vidas.
Ouço-te a dizer uma frase que não chegas a completar porque pelo meio irrompe uma recordação mais apressada.
O melhor é deixar vir o que tem de vir porque tentar fixar uma imagem é condená-la a desaparecer, ensaiar uma recordação é afastá-la para longe, correr o risco de para sempre a perder.
Pensar em ti é um mágico jogo em que continuas a brincar comigo para além da minha vontade.
Por vezes levas-me para lugares sombrios e dolorosos para que ninguém caia na mentira de que tudo foi fácil.
As tuas zangas voltam a parecer pavorosas, a assustar-me.
As tuas palavras duras ainda me fazem ficar calado e entristecer de repente.
Mas há a compensação do súbito abraço, do sufoco das línguas, do sossego na alma.
É tão estranha a memória, tão inútil, tão poderosa.
Raramente me deixo abandonar a ti como agora, mas hoje, repito, não quero ser incomodado por nada deste mundo, que tu já nem sequer habitas.
E ainda gostava que soubesses que não consigo, ao pensar em ti, separar-te da beleza do teu corpo.
O que pode ser injusto, pois tu tens a alegria e a graça que atrai e vence.
Mas é o teu belo corpo que continua a fazer de mim parvo, a prometer-me a felicidade que jamais alcançarei.
Guarda esta confissão e faz dela o que quiseres."

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