terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Afecto

Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Olhei da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.


Às vezes como uma moeda
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.


Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que tu me conheces.


Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
Porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste e te sinto tão longe?


Caiu o livro em que sempre pegamos ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou a minha capa aos pés.


Sempre, sempre te afastas pela tarde
para onde o crepúsculo corre apagando estátuas.


Pablo Neruda
in Vinte Poemas de Amor
e
Uma Canção Desesperada

2 comentários:

Maria disse...

Minha querida

Sabes há quanto tempo me acompanha este livro de Pablo Neruda? Desde 1973! Decerto não eras nascida. E é tão bom saber que os jovens sabem distinguir o que é bom do lixo que nos polui todos os dias...
Pablito é um Poeta Maior!

Beijinho, Andreia

Mukanda disse...

Beijo-te Maria
Gosto-te
Até já
Andreia