sexta-feira, 7 de novembro de 2008

"Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção.
Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti.
Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço.
Isto acontece uma vez, e outra e outra, como uma especie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê?
Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada a ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti.
Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta à outra.
Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido.
Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu.
É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.
E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba.
O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele.
Um sangue vermelho, quente.
Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros. E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la de ter conseguido sobreviver.
Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim.
Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa.
Só assim as tempestades fazem sentido."

Excerto - Kafka à beira-mar

1 comentário:

Leticia Gabian disse...

Verdade incontestável!
Só assim fazem sentido.



Beijo enorme, querida