terça-feira, 18 de novembro de 2008

Muito em breve nos veremos ...
Não lhe tinha sido fácil recuperar esse domínio a partir do momento em que ouviu o grito de Digna Pardo no quintal e encontrou o ancião de sua vida agonizando no lodo. Sua primeira reação foi de esperança porque ele tinha os olhos abertos e um brilho de luz radiante que ela jamais lhe vira nas pupilas. Rogou a Deus que lhe concedesse ao menos um instante para que ele não partisse sem saber quanto o amara por cima das dúvidas de ambos e sentiu a premência irresistível de começar a vida com ele outra vez desde o começo para que se dissessem tudo que tinham ficado sem dizer, e fizessem bem qualquer coisa que tivessem feito mal no passado. Mas teve que render-se à intransigência da morte. Sua dor se descompôs numa cólera cega contra o mundo, e até contra ela própria, o que lhe infundiu o domínio e a coragem de enfrentar sozinha sua solidão. Desde então não teve trégua, mas se preveniu contra qualquer gesto que parecesse alarde de sua dor.Antes que fechassem o caixão, Fermina Daza tirou sua aliança e a colocou no marido morto, e depois lhe cobriu a mão com a sua, como sempre fazia ao surpreendê-lo divagando em público.- Muito em breve nos veremos — lhe disse.
- Gabriel Garcia Marquez in “O Amor no Tempo do Cólera”

4 comentários:

Leticia Gabian disse...

E as voltas que o mundo dá...!
O que tem de ser, inevitavelmente, será.
Nem o cólera é capaz de alterar o rumo das coisas.

Beijo grande grande grande, minha querida

Anónimo disse...

Sem dúvida minha querida!
Também acredito, que nada acontece por acaso, mesmo que nos doa muito no momento...
E o que tiver de ser, será.
O Mundo dá mesmo muitas voltas :)
Um bom dia para ti querida.
Um beijinho grande
Andreia

GothTec disse...

Oi...
Sabes? Muito bom esse livro...como todos os do 'Señor Marquez' E um trecho muito bem apanhado!!
Um beijinho
Rui

Anónimo disse...

Bem vindo Rui! :)
Um beijinho grande
Andreia Vilarinho