quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Fica sempre um pouco de nós em tudo...nas pessoas, nos lugares, na Vida!

"De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato."
Carlos Drummond de Andrade

Como de tudo fica um pouco, hoje fica este poema muito bonito...
Besos
Mukanda

4 comentários:

Leticia Gabian disse...

Grande Drumond e a sua maneira crua de dizer poesia!

Beijo grande, querida

Anónimo disse...

Sem dúvida queria,
Crua/linda
Beijo grande também para ti.
Até já

Maria disse...

Gosto de Drumond de Andrade pela forma nua e crua como escreve. Como diz as coisas. Como faz poesia. Como canta a vida. Como faz amor. Como tudo...
E como fica sempre um pouco de nós em tudo, também do tudo, de todos, fica um pouco em nós. Quem dera ficasse só a parte positiva da vida...

Um beijo, Andreia

Anónimo disse...

Sem dúvida Maria.
"E como fica sempre um pouco de nós em tudo, também do tudo, de todos, fica um pouco em nós.
Quem dera que ficasse só a parte positiva da vida..."
Nos momentos mais negativos, deviamos ter a sabedoria de os tornar mais positivos.
Porque muitas vezes, até nos momentos mais tristes, encontramos algo de bom.
Apesar de no momento, não O conseguirmos ver.
MAs tudo isto na teoria é uma coisa e depois na prática...
Sabes, quando eu estou nestes MEUS MOMENTOS MAIS TRISTES, recorro sempre, sempre à mami.
Ela dá-me muita tranquilidade, paz, amor, carinho e muita sabedoria.
Mami é Mami.
Costumo-lhe dizer "que ela me acalma o espirito :)"
Sou impulsiva por natureza, sou leoa.:)
Apesar de, hoje em dia, ser muito menos.
Com o passar dos anos, começamos a controlar melhor os nossos impulsos...e a perceber tantas coisas que até ao momento não entendiamos e muitas vezes nem faziam qualquer sentido.
Isto é crescer.
Isto é a Vida.
E a vida é a vida
Um beijinho grande também para ti Maria.
Quando a Leticia vier, marcaremos uma "tertúlia" para nos conhecermos pessoalmente.