quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Pergunta-me

Pergunta-me
Se ainda és o meu fogo
Se acendes ainda
O minuto de cinza
Se despertas
A ave magoada
Que se queda
Na árvore do meu sangue

Pergunta-me
Se o vento não traz nada
Se o vento tudo arrasta
Se na quietude do lago
Repousaram a fúria
E o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
Se te voltei a encontrar
De todas as vezes que me detive
Junto das pontes enevoadas
E se eras tu
Quem eu via
Na infinita dispersão do meu ser
Se eras tu
Que reunias pedaços do meu poema
Reconstruindo
A folha rasgada
Na minha mão descrente

Qualquer coisa
Pergunta-me qualquer coisa
Uma tolice
Um mistério indecifrável
Simplesmente
Para que eu saiba
Que queres ainda saber
Para que mesmo sem te responder
Saibas o que te quero dizer.

De Mia Couto-1955

2 comentários:

Pedro Branco disse...

Lindo! Não conhecia este poema. Adoro Mia Couto.

Beijo para ti.

Mukanda disse...

Olá Pedro,
Eu fiquei a conhecê-lo há muito pouco tempo.
É mesmo muito bonito.
Eu também gosto muito de Mia Couto.
Neste momento ando a ler:
"O Outro Pé da Sereia"
Estou a adorar.
Um beijinho grande
Andreia Vilarinho Flórido