Bom fim de semana
Mukanda
(crítica publicada na edição «O Primeiro de Janeiro»)
As descobertas de novos talentos cinematográficos revelam-se sempre promissoras, como se, num instante, o cinema voltasse a viver o seu momento primordial.
Abdel Kechiche faz parte desse grupo das novas descobertas, agora que estreia em Portugal a sua muito premiada terceira longa-metragem: «O Segredo de um Cuscuz».
O realizador é um francês-árabe descendente de uma família imigrante que procura em França melhores condições de vida.
Esta filiação é decisiva para perceber a forma como o seu cinema parte de um contexto social específico, que procura, na sua própria «comunidade», construir um mundo europeu atento às periferias.
E é interessante verificar como este filme, com este fundo social, vence os principais prémios dos Césares (os prémios da indústria cinematográfica francesa), assim como o Prémio Especial do Júri em Veneza 2007.
É assim um filme a descobrir, pela sua deliciosa história, e pela forma como Kechiche a trabalha. A narrativa do filme centra-se em Slimane, um francês-árabe, com os seus sessenta anos, cansado, que estás prestes a ser despedido da empresa náutica onde trabalha, que já o considera inútil e lento.
Contudo, Slimane acaba por dar a volta a este despedimento eminente, ao despedir-se da empresa e ao procurar abrir um restaurante num barco abandonado.
É esta aventura que Slimane se propõe a avançar, baseado numa ideia: a de oferecer refeições de peixe com cuscuz, um prato delicioso que a sua ex-mulher cozinha.
Assim, Slimane aventura-se com toda a sua família: filhos, filhas, ex-mulher, a sua companheira actual (uma mulher de armas, dona de um pequeno hotel) e a filha desta, Rym.
É mesmo Rym que será a principal aliada de Slimane ao acompanhá-lo em toda a burocracia necessária à aventura.
Quando o projecto estás prestes a ser derrubado por esta burocracia, surge uma nova ideia: a de oferecer um jantar-teste a todas as pessoas importantes da comunidade.
É à noite deste jantar que o filme dedica a sua parte final e a uma peripécia que quase põe em causa o sucesso desta aventura. «O Segredo de um Cuscuz» organiza-se em torno de uma narrativa bastante articulada, que permite conhecer todos os “pequenos” personagens da história. Esta forma de contar a história é bastante interessante, mesmo que isso implique, por outro lado, um aumento exponencial da duração do filme.
Contudo, desta forma, tudo está no local certo, com a ponderação exacta.
Sobra, por isso, tempo para o filme se enlaçar no contexto da comunidade franco-árabe, mostrando as formas como ela se integrou na comunidade da pequena cidade onde se passa o filme.
Por um lado, torna-se óbvia a crítica social pela precariedade da situação laboral; por outro, mostra-se como as duas comunidades se enlaçaram e criaram uma nova forma de cumplicidade. É esta teia de afectos que permite certas sequências, como a do almoço em família, em que o árabe, como língua, serve como barreira,mas também como forma de descoberta de um outro mundo.
Mas «O Segredo de um Cuscuz» vive, sobretudo, da generosidade dos seus actores, na maior parte deles amadores, que se entregam às personagens, criando uma narrativa credível.
É aí que surge a frescura de Rym (Hafsia Herzi), que se entrega ao projecto do padrasto e que o resgata como um pai que não teve (nem nunca saberemos o que se passou para trás).
Na teia dos ciúmes e dos pequenos afectos, Rym solta-se pela autenticidade e pela entrega aos outros.
Acaba por ser uma bonita forma de mostrar um projecto de cinema humanista.
Kechiche aparece, assim, na vanguarda de uma cinema francês de periferia, atento a comunidades emergentes e capaz de lhes dar uma voz, que mais não é do que a voz de uma dignidade humana. E é todo um programa que, dessa forma, se podem descobrir as entrelinhas de «O Segredo de um Cuscuz». «O Segredo de um Cuscuz» («La Graine et le Mulet»).
Um filme de Abdel Kechiche, com Habib Boufares, Hafsia Herzi e Farida Benkhetache.
França, 2007, Cor, 151 min.
Site Oficial: http://www.lagraineetlemulet-lefilm.com/
Mukanda
(crítica publicada na edição «O Primeiro de Janeiro»)
As descobertas de novos talentos cinematográficos revelam-se sempre promissoras, como se, num instante, o cinema voltasse a viver o seu momento primordial.
Abdel Kechiche faz parte desse grupo das novas descobertas, agora que estreia em Portugal a sua muito premiada terceira longa-metragem: «O Segredo de um Cuscuz».
O realizador é um francês-árabe descendente de uma família imigrante que procura em França melhores condições de vida.
Esta filiação é decisiva para perceber a forma como o seu cinema parte de um contexto social específico, que procura, na sua própria «comunidade», construir um mundo europeu atento às periferias.
E é interessante verificar como este filme, com este fundo social, vence os principais prémios dos Césares (os prémios da indústria cinematográfica francesa), assim como o Prémio Especial do Júri em Veneza 2007.
É assim um filme a descobrir, pela sua deliciosa história, e pela forma como Kechiche a trabalha. A narrativa do filme centra-se em Slimane, um francês-árabe, com os seus sessenta anos, cansado, que estás prestes a ser despedido da empresa náutica onde trabalha, que já o considera inútil e lento.
Contudo, Slimane acaba por dar a volta a este despedimento eminente, ao despedir-se da empresa e ao procurar abrir um restaurante num barco abandonado.
É esta aventura que Slimane se propõe a avançar, baseado numa ideia: a de oferecer refeições de peixe com cuscuz, um prato delicioso que a sua ex-mulher cozinha.
Assim, Slimane aventura-se com toda a sua família: filhos, filhas, ex-mulher, a sua companheira actual (uma mulher de armas, dona de um pequeno hotel) e a filha desta, Rym.
É mesmo Rym que será a principal aliada de Slimane ao acompanhá-lo em toda a burocracia necessária à aventura.
Quando o projecto estás prestes a ser derrubado por esta burocracia, surge uma nova ideia: a de oferecer um jantar-teste a todas as pessoas importantes da comunidade.
É à noite deste jantar que o filme dedica a sua parte final e a uma peripécia que quase põe em causa o sucesso desta aventura. «O Segredo de um Cuscuz» organiza-se em torno de uma narrativa bastante articulada, que permite conhecer todos os “pequenos” personagens da história. Esta forma de contar a história é bastante interessante, mesmo que isso implique, por outro lado, um aumento exponencial da duração do filme.
Contudo, desta forma, tudo está no local certo, com a ponderação exacta.
Sobra, por isso, tempo para o filme se enlaçar no contexto da comunidade franco-árabe, mostrando as formas como ela se integrou na comunidade da pequena cidade onde se passa o filme.
Por um lado, torna-se óbvia a crítica social pela precariedade da situação laboral; por outro, mostra-se como as duas comunidades se enlaçaram e criaram uma nova forma de cumplicidade. É esta teia de afectos que permite certas sequências, como a do almoço em família, em que o árabe, como língua, serve como barreira,mas também como forma de descoberta de um outro mundo.
Mas «O Segredo de um Cuscuz» vive, sobretudo, da generosidade dos seus actores, na maior parte deles amadores, que se entregam às personagens, criando uma narrativa credível.
É aí que surge a frescura de Rym (Hafsia Herzi), que se entrega ao projecto do padrasto e que o resgata como um pai que não teve (nem nunca saberemos o que se passou para trás).
Na teia dos ciúmes e dos pequenos afectos, Rym solta-se pela autenticidade e pela entrega aos outros.
Acaba por ser uma bonita forma de mostrar um projecto de cinema humanista.
Kechiche aparece, assim, na vanguarda de uma cinema francês de periferia, atento a comunidades emergentes e capaz de lhes dar uma voz, que mais não é do que a voz de uma dignidade humana. E é todo um programa que, dessa forma, se podem descobrir as entrelinhas de «O Segredo de um Cuscuz». «O Segredo de um Cuscuz» («La Graine et le Mulet»).
Um filme de Abdel Kechiche, com Habib Boufares, Hafsia Herzi e Farida Benkhetache.
França, 2007, Cor, 151 min.
Site Oficial: http://www.lagraineetlemulet-lefilm.com/

2 comentários:
Minha Linda Mukanda, obrigado pela dica. Bom fim de semana para ti.
(nunca mais nos vemos? Continuas bonita? :))
Besos!
De nada meu querido Zé.
Tenho saudades vossas ;(
Continuo tão bonita, quanto a nossa Fátima e tu! :)
Beso aos dois.
Mukanda
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